Página Inicial Data de criação : 07/12/04 Última actualização : 09/01/05 21:18 / 197 Artigos publicados

Sobre Fotografia

Ilusão de Óptica  (Sobre Fotografia) Inserido Friday 03 October 2008 23:40

Reflex II

Segundo o nosso amigo Lunatik, a imagem Reflex, do artigo Pregar no Deserto, foge um pouco á coerência do meu discurso fotográfico. Não deixa de ter alguma razão, mas, para além da coerência na linguagem visual que utilizo, há uma outra vertente a que dou alguma importância, e que para falar francamente, raras vezes exploro. È a Tricky photo. Ou melhor dizendo, a foto problemática, com truque, enganadora. Seja no jogo de luz, ou na composição. A foto que parece uma coisa e é outra. No caso desta foto Reflex, há um paradoxo, em que praticamente ninguém repara. A silhueta que aparece é a minha. Ora bem, como é que eu posso fotografar a minha sombra, estando de frente para ela? A sombra (garanto que é minha) devia estar no enfiamento do “olhar” da câmara, ou seja surgir na parte debaixo da imagem, e não vir de cima da mesma. Verdade seja dita que há um fotógrafo inglês do site Ppfuk.com que andou perto da verdade. Também é verdade, que não coloquei a foto on-line para criar um quebra-cabeças. Coloquei-a em vários sites, com a ideia de que a maioria das pessoas não olhavam para ela duas vezes. Não me enganei, parece vulgar, e como diz o nosso amigo Lunatik, até podia ter sido tirada com um telemóvel. Mas não é, a fusão do cimento com a água, remete-nos para um universo visualmente delirante como é o de Salvador Dali, com um céu sujo e cheio de beatas. A minha sombra é um quebra-cabeças relativamente fácil de resolver. Evoco Dali, apenas no sentido plástico da fusão dos elementos, e não com qualquer outra pretensão. O grande Dali, é o mestre visionário, sonhador ou alucinado, se quiserem, da pintura moderna. Só para evocar o seu nome tive de me penitenciar 100 vezes. Se alguém quiser comentar a foto está há vontade para o fazer. Volto a colocá-la, mas numa versão B/W, que serve também para demonstrar que o preto e branco não é solução para tudo, e nem sempre melhora a fotografia original. OPV      

 

 

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O Fotógrafo cego  (Sobre Fotografia) Inserido Wednesday 01 October 2008 23:32

Fisher silhouette

Há uma enorme quantidade de fotógrafos, iniciados e veteranos, que querem fotografar tudo. O tema é infinito, e as possibilidades idem aspas. Quando se procede assim, normalmente não se fotografa nada, pelo menos nada diferente daquilo que todos os outros fotografam. Por definição ver é selectivo. A visão que é o resultado do sentido do ver, é a habilidade para ver o que os outros não vêem, a isso, também podemos chamar escolha. Visão é dizer sim a um (ou parte de um) determinado tema, e não a outro. Temos que fazer uma selecção, porque sabemos que fotografar tudo, é o mesmo que não fotografar nada. Imaginem um fotógrafo cego. Porquê é que isto é assim? Porque simplesmente, leva anos e anos, para fotografar bem. Leva uma data de anos, para apreender a ver o que os outros não vêem. È preciso uma enorme quantidade de tempo e esforço para, conseguir destacar, uma parte de toda a realidade, que se nos oferece diariamente. Consequentemente, se alguém quiser fotografar tudo aquilo que se lhe apresenta pela frente (o muro visual), acaba por falhar. Falha, porque não terá tempo para aperfeiçoar a sua visão, dado o volume de informação a que está sujeito. O resultado poderá ser traduzido em imagens banais, que embora possam ter potencial, não o chegam a concretizar. Por isso, se quiser fazer boa fotografia, tem que apreender ser selectivo. Há alguns fotógrafos que podem dizer; mas eu já sou selectivo quando opto, por exemplo, por Street Photography em detrimento das paisagens, ou do retrato. Com certeza que isso é uma selecção. Mas não é suficiente, nem sequer está lá perto. Porquê? Porque Street Photography, é um campo de acção, não é uma selecção. Obviamente isto vale para qualquer outro tipo de fotografia. Seja, retrato, moda, reportagem ou paisagens, são sempre campos de acção, ou trabalho, e não uma selecção. A selecção começa, quando fazemos escolhas, sobre o que fotografar ou não fotografar, dentro do nosso campo de acção. Por vezes, podemos precisar de anos para ver aquilo que queremos ver. Por isto tudo, é que a Fotografia é uma Arte, muito mais difícil daquilo que parece. È possível andar toda a vida a tirar fotos, e “nunca” fazer Fotografia. Podemos levar décadas a tentar educar um olhar e nunca o conseguir. Pessoalmente, levei alguns anos, para ver determinadas fotos, que sempre estiveram diante dos meus olhos. Se consegui, ou não, transformá-las em Arte, isso é outra história. Esta noção de educar a visão é fundamental, porque a alternativa é simplesmente a do fotógrafo cego. OPV    

 

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R D E  (Sobre Fotografia) Inserido Thursday 18 September 2008 20:24

Walk alone    

A fotografia que praticamos faz-nos felizes? Claro que isso depende da expectativa de cada pessoa, mas o que realmente conta é a realidade em que cada um está imerso. Se considerarmos que a “realidade” é uma constante, a expectativa tem de ser (um numero) maior do que a realidade para criar optimismo. Por outro lado o pessimista pode aproximar-se do zero, mas sem nunca o alcançar. Nunca chega a perder completamente a esperança. 

Um fotógrafo talentoso pode fazer fotos interessantes, ou até fantásticas, e não se sentir satisfeito, (feliz é uma palavra demasiado forte) com isso. Em contrapartida, um fotógrafo “medíocre”, uma vez por outra, consegue fazer uma boa foto, e sente-se um bem-aventurado. Existe alguma receita para tirar o máximo prazer da arte de fotografar? Bom, receita não sei se existe, mas há quem tenha tentado criar uma fórmula matemática para a felicidade. Terá aplicação na fotografia? Talvez. È tudo uma questão de imaginação. A fórmula é RDE. Uma formula que um economista (mais um) inventou. RDE ou seja, a Realidade a Dividir pelas Expectativas. Segundo esta fórmula há duas maneiras de ser feliz: melhorar a nossa realidade, ou baixar as nossas expectativas. Claro que se não tivermos expectativas nenhumas, não podemos dividir alguma coisa por zero.

Se na “realidade”, a nossa técnica e criatividade é um tanto ou quanto limitada, é conveniente não ter expectativas muito elevadas, quanto ao sucesso do nosso trabalho. Por outro lado, se tecnicamente e criativamente formos excelentes (confirmado pelos pares), também não! Exactamente. Mesmo, que o meu “amigo” ou “amiga”, saiba com toda a “certeza” que é um(a) excelente fotógrafo, faça um favor a si mesmo, nada de expectativas. Porquê? Porque há uma grande diferença entre algo que nos faz felizes e algo que não nos faz infelizes. Normalmente tentamos convencer-nos a nós próprios de que são ambas a mesma coisa. Mas não são! Só por si, o acto de fotografar deveria ser suficiente para nos deixar “felizes”. O reconhecimento (ou não) da nossa arte, não deveria tornar-nos “felizes” ou “infelizes”. Por cada pessoa que acha o reconhecimento e a “glória” reconfortante, existe outra que acha sufocante. Por vezes, a mesma pessoa que deseja a “gloria”, depois de a obter, pagava, para nunca a ter conhecido. Neste caso o coeficiente de conforto torna-se num número negativo e afasta-a da “felicidade”. A “fama” ou a falta dela, é algo que devíamos saber “engolir”, quer seja muito saboroso, ou simplesmente intragável. È como o miúdo, que come a sopa toda, e fica á espera da festinha na cabeça. Já encheste a barriga palerma, não abuses da sorte, e parte para a sobremesa. OPV

 

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BES(T) OF  (Sobre Fotografia) Inserido Tuesday 09 September 2008 20:46

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Goalkeeper

Se eu tivesse a sabedoria suficiente para compreender a suprema Arte da Fotografia evitaria os atalhos obscuros que podem desviar-me do meu caminho. O trajecto para a Arte pode ser mais longo, mas é directo, todavia, a maioria de nós prefere os atalhos. Quando metemos por esses atalhos, muitas das vezes, perdemos a saúde para ganhar dinheiro e depois perdemos o dinheiro para recuperar a saúde. Quando estamos nos atalhos e fotografamos, pensamos ansiosamente no futuro daquela foto, e esquecemos o prazer que ela nos dá no momento presente. Quando estamos no caminho certo, tudo é claro e parece que se desenrola de moto próprio. A fotografia quase que se faz a si mesma, e o tempo parece parar. Há variadíssimos níveis de fotógrafos e de fotografia. Mas a fotografia é só uma. Impõe-se por si mesma, pela sua estética e concepção. Nem todas as imagens são Fotografia, como nem todos os “homens” são seres humanos. Há muito “boneco” por aí. Verifiquei isso mesmo, numa pequena peça televisiva sobre a colecção fotográfica do BES. A ideia luminosa de colocar um par de chuteiras num bocado de relva, fotografá-las e imprimir em tamanho XXL pode parecer muito artística, mas não é. A foto é simplesmente má, como a maior parte das que compõe a exposição. Que a senhora responsável pela exposição diga que a foto mais cara custa quinhentos mil euros, só revela que um banco deve ficar-se pela contagem do dinheirinho e mais nada. Quando pretende gastá-lo em arte, só dá merda. Não vi a exposição na íntegra, e não posso afirmar que não haja algumas fotos de qualidade. Mas posso afirmar é que; não há neste mundo, nem no outro, uma foto que valha meio milhão de euros. Se me falarem dos negativos originais de Cartier Brenson ou do Ansel Adams, ainda penso duas vezes. Agora “artistices” não! Já chega o Berardo. Esta gente que de talento nada percebe, e que compra pretensa “arte”, como os russos novos-ricos compram os seus novos “ferros” de golfe, todos do mesmo número, deixa-me siderado. È quase como a febre dos escritores. Gosto de escrever, mas acontece que, quando leio um bom livro, (e já li muitos), perco a pretensão de escrever algo que ultrapasse o carácter praticamente anónimo deste Blogue. No entanto, entro numa livraria, e fico banzado com a imensidão de títulos e autores. Hoje em dia, qualquer idiota, que consiga alinhar as letrinhas de uma maneira racional, é um escritor. Seja futebolista, ou mulher da bola, pivot de televisão, ou cartomante em part-time, polícia reformado ou vigarista no activo, é um autêntico forrobodó. Onde pára a modéstia? Todos estes “escritores”, deveriam ser obrigados, em regime de trabalhos forçados, a plantar o dobro das árvores, que foram abatidas, só para publicar a merda que escreveram. A escrita banalizou-se, e a fotografia também. È “fácil” escrever e é “fácil” fotografar. Daí, a escrever ou captar, algo a “sério” vai uma distância abismal.               Fica uma sugestão ao BES, “garanto” que consigo fazer uma foto igual (ou parecida) a essa do meio milhão, por metade do preço, e ofereço a outra metade a uma associação de solidariedade á vossa escolha, de preferência, uma de invisuais. Com tantos ceguinhos nesse banco, não vão ter dificuldades em descobrir uma. OPV   

          

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Muro visual.  (Sobre Fotografia) Inserido Friday 22 August 2008 19:17

Zen sand  

 

"A hipótese de que as imagens tenham alma parece confirmada pelos efeitos da minha máquina sobre as pessoas, os animais e os vegetais emissores".
(Adolfo Bioy Casares, A Invenção de Morel, 113).  

 

È uma observação perspicaz e uma hipótese plausível, no entanto alma é capaz de ser um termo um pouco datado (humanamente), mas que uma imagem (neste caso uma foto) tem identidade própria, disso não tenho duvidas. No fundo, aquilo que o fotógrafo faz é seleccionar imagens. Selecciona-as porquê? Porque de alguma maneira elas se lhe impuseram, seleccionaram-se a si mesmas. Para simplificar, esqueçamos os milhões de fotógrafos e os biliões de imagens, só um fotógrafo e uma única imagem. Estando o fotógrafo imerso num mundo “virtualmente” visual, porque é que determinada foto se impõe? Com um número quase infinito de ângulos, planos, pontos de fuga, variações de luz e enquadramentos ao seu dispor, ele toma uma opção? Ou não tem opção? Só pode fazer aquela foto e não outra? È o fotografo que faz a imagem, ou é a imagem que faz o fotografo? Parece uma pergunta disparatada não é? Pois é, mas se do universo de todos os fotógrafos (largos milhões), a maioria 99.999% afirmar que, a primeira hipótese é que é verdadeira, então tenho sérias razões para acreditar, que, a segunda é que é “verdade”. A unanimidade sempre me pareceu um bom indicador do que algo está errado.          

Há milénios que lidamos com imagens, símbolos e mitos, que, supostamente deveriam ajudar-nos a descobrir quem somos, ou no mínimo, o que somos. Que sabemos nós? Nada! Não sabemos o que (nem quem) somos. Pior ainda, não sabemos que “realidade” é esta onde estamos submergidos! A alucinação colectiva em que a humanidade está mergulhada é pontualmente quebrada, por aqueles seres humanos que enlouquecem. A mente funde-se com o universo circundante e, os códigos de sobrevivência, vão literalmente “á vida”. O muro visual desaparece. As etiquetas e definições não têm lugar nas identidades vazias. Precisamente por estarem vazias é que cabe lá tudo. Os outros, os “lúcidos”, continuam a trabalhar na mesma frequência. A expandir o self, através da construção e desmaterialização permanente da imagem. Não vemos só aquilo que queremos, o “universo” entra-nos pelos olhos dentro. Quando pensamos que seleccionamos algo com a nossa máquina fotográfica, estamos na realidade a assentar mais um tijolo no longo muro da “realidade visual” que rodeia a nossa existência. Então, quem não faz fotografia, tem esse mesmo muro a rodeá-lo? Obviamente que tem, mas provavelmente nunca se aperceberá dele. Mesmo entre aqueles que praticam a Arte da Fotografia, só alguns, e só ao fim de um certo período de tempo, se apercebem do “muro visual”. È evidente que há uma subtil diferença, entre quem “tira umas fotos” e quem tenta, ou consegue usar a Fotografia como Arte. A diferença é, que, no primeiro caso o olhar do indivíduo é solicitado pelo “objecto” que lhe é familiar. Sejam familiares, amigos, monumentos ou paisagens. As suas opções são aleatórias e sem fio condutor. È (quase) como um pintor Naïf. Passe o pleonasmo, o olhar não está treinado, e só “vê aquilo que vê”. No segundo caso, o Fotógrafo que encara a Fotografia como Arte, tem perante ela, uma altitude conceptual, e uma abordagem criativa, vê fotografias em todo o lado, mesmo onde elas não existem para o “comum dos mortais”. Como é “evidente” não podemos fotografar aquilo que não vemos. Paradoxalmente, algumas das fotografias que vemos, parecem terem sido feitas por invisuais. OPV              

 

 

 

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