UM DESTES DIAS, um amigo perguntou-me, porquê ler Proust, o que tem este escritor de tão especial? O que pode ele acrescentar á fotografia? A resposta é simples, primeiro é especial porque o seu principal romance, o incontornável Em Busca do Tempo Perdido, constitui um profundo mergulho nas águas turvas da memória. Na literatura universal é aquele que vai mais longe ou mais fundo se quiserem. Esta obra é ainda mais notável quando pensamos que Proust a escreveu, precisamente quando Freud desenvolvia a psicanálise. De certa maneira era um psicanalista, num tempo em que a psicanálise ainda não existia.
SEGUNDO, o que é que “ele” pode fazer pela nossa fotografia? Bom, principalmente ensina-nos a vantagem que pode vir de um segundo olhar. As nossas insatisfações ou frustrações, resultam a maior parte das vezes do facto de não olharmos adequadamente para as nossas vidas e para aquilo que as compõe ou rodeia. Não há nenhum problema inerente a elas, o “problema” está no olhar. Apreciar a beleza das borboletas não invalida o nosso interesse num prédio de linhas arrojadas, mas não o fazer põe em causa a nossa capacidade de apreciar o que observamos em termos mais amplos. Enfim, Proust ensina-nos a olhar para os insectos e para a Torre Eiffel, para a maçã caída e para a Torre de Pisa. Para uma grande paisagem e para um ínfimo pormenor.
CLARO que é difícil de ler, principalmente porque nas suas páginas, o tempo perde os seus parâmetros “normais” e a sua narrativa parece que não leva lado nenhum. Detêm-se em detalhes que não “lembram ao diabo”, e aparentemente, diverge do assunto que começou vezes sem conta. Na realidade Proust não conta uma história, conta varias historias dentro duma história. Como na vida, os pormenores aparentemente insignificantes, cruzam-se e descruzam-se para tecer a malha de que esta é composta. Quem tiver paciência para o ler, (e entender) estará a fazer um dos maiores exercícios mentais que conheço. Estimula a memória, a capacidade de visualização e a organização espacial. Pessoalmente, ajuda-me na composição espacial e na noção do tempo e espaço. Para quem não tiver essa paciência, este escritor não passará de um chato, pretensioso e ilegível. Se tentar e não conseguir, faça como eu, aguarde uns anos valentes e volte a tentar. A primeira vez que o li, foi há mais de 30 anos e maior parte das coisas passou-me ao lado. Voltei a tentar acerca de 10 anos, e já consegui penetrar um bocadinho mais naquele universo labiríntico. Finalmente, resolvi comprar os sete volumes com a tradução do Pedro Tamen (que recomendo) e parece que finalmente me sintonizei com aquele génio hipocondríaco. Realmente não é pêra doce, e provavelmente só a partir de uma determinada idade é que temos paciência para ler uma obra destas. Se for o seu caso, não desespere, e daqui a vinte anos diga-me alguma coisa, até lá boas fotos. OPV
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