Página Inicial Data de criação : 07/12/04 Última actualização : 10/03/09 21:48 / 313 Artigos publicados
 

Proust.kom

Porquê Proust?  (Proust.kom) Inserido Saturday 02 January 2010 22:42

UM DESTES DIAS, um amigo perguntou-me, porquê ler Proust, o que tem este escritor de tão especial? O que pode ele acrescentar á fotografia? A resposta é simples, primeiro é especial porque o seu principal romance, o incontornável Em Busca do Tempo Perdido, constitui um profundo mergulho nas águas turvas da memória. Na literatura universal é aquele que vai mais longe ou mais fundo se quiserem. Esta obra é ainda mais notável quando pensamos que Proust a escreveu, precisamente quando Freud desenvolvia a psicanálise. De certa maneira era um psicanalista, num tempo em que a psicanálise ainda não existia.  

SEGUNDO, o que é que “ele” pode fazer pela nossa fotografia? Bom, principalmente ensina-nos a vantagem que pode vir de um segundo olhar. As nossas insatisfações ou frustrações, resultam a maior parte das vezes do facto de não olharmos adequadamente para as nossas vidas e para aquilo que as compõe ou rodeia. Não há nenhum problema inerente a elas, o “problema” está no olhar. Apreciar a beleza das borboletas não invalida o nosso interesse num prédio de linhas arrojadas, mas não o fazer põe em causa a nossa capacidade de apreciar o que observamos em termos mais amplos. Enfim, Proust ensina-nos a olhar para os insectos e para a Torre Eiffel, para a maçã caída e para a Torre de Pisa. Para uma grande paisagem e para um ínfimo pormenor.

CLARO que é difícil de ler, principalmente porque nas suas páginas, o tempo perde os seus parâmetros “normais” e a sua narrativa parece que não leva lado nenhum. Detêm-se em detalhes que não “lembram ao diabo”, e aparentemente, diverge do assunto que começou vezes sem conta. Na realidade Proust não conta uma história, conta varias historias dentro duma história. Como na vida, os pormenores aparentemente insignificantes, cruzam-se e descruzam-se para tecer a malha de que esta é composta. Quem tiver paciência para o ler, (e entender) estará a fazer um dos maiores exercícios mentais que conheço. Estimula a memória, a capacidade de visualização e a organização espacial. Pessoalmente, ajuda-me na composição espacial e na noção do tempo e espaço. Para quem não tiver essa paciência, este escritor não passará de um chato, pretensioso e ilegível. Se tentar e não conseguir, faça como eu, aguarde uns anos valentes e volte a tentar. A primeira vez que o li, foi há mais de 30 anos e maior parte das coisas passou-me ao lado. Voltei a tentar acerca de 10 anos, e já consegui penetrar um bocadinho mais naquele universo labiríntico. Finalmente, resolvi comprar os sete volumes com a tradução do Pedro Tamen (que recomendo) e parece que finalmente me sintonizei com aquele génio hipocondríaco. Realmente não é pêra doce, e provavelmente só a partir de uma determinada idade é que temos paciência para ler uma obra destas. Se for o seu caso, não desespere, e daqui a vinte anos diga-me alguma coisa, até lá boas fotos. OPV           

 

 

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Da simplicidade da beleza.  (Proust.kom) Inserido Saturday 19 December 2009 22:18

A BELEZA é algo a descobrir, não é algo que se encontre passivamente. É preciso estar atento a alguns pormenores, que identifiquemos a brancura duma parede acabada de caiar, a posição de um pescador, o reflexo das ondas do mar, e outras coisas simples. As imagens que preenchem os nossos dias são demasiado pomposas. Qualquer publicidade a um simples perfume, evoca cenários faraónicos, mulheres deslumbrantes e imagens fascinantes. Somos permanentemente afastados dos cenários modestos, da simplicidade da vida. Os grandes mestres da pintura deixaram-nos varias obras-primas em que o “objecto” retratado era o mais simples possível, ou simplesmente “aquilo” que estava mais á mão. O Filosofo de Rembrandt mostra-nos “simplesmente” um homem sentado num quarto mal iluminado, a meditar á janela. Para os “espíritos” menos sensíveis poderá ocorrer a seguinte pergunta, mas isto é uma obra-prima?

POIS SÃO basicamente as pessoas com esse mesmo tipo de “espírito” que hoje em dia, se sentem fascinados pelas celebridades e os “famosos” dos nossos dias. Imaginam vidas plenas de Glamour e cheias de interesse, criam na sua imaginação personagens feitos de uma substancia diferente. Vendem a alma para parecer o que não são e entrarem em certos círculos, que julgam de elite. Esta pretensa elite é uma fraude, e infelizmente, tem voto na matéria quando se trata de Arte. No jornal Publico deste sábado vi algumas fotografias pertencentes a uma colecção de um famoso escritório de advogados e fiquei banzado. Por uma questão de pudor, evito pronunciar-me sobre os chamados “fotógrafos consagrados” portugueses. Mas não resisto a perguntar, consagrados por quem? Pelo BES? Pela colecção Berardo? Pela galeria Zé dos Bois? Estão a gozar com o pagode? 

CONHEÇO um personagem interessante que passou pelo calvário da ascensão social. Conseguiu frequentar as festas da senhora X, caiu nas boas graças do actor Y e da actriz O, privou com empresários e homens de negócios, até chegou a conhecer um aristocrata, gastou uma fortuna nestas andanças, e acabou por perceber que tinha comprado uma mentira. Chegou á conclusão que era preferível ficar em casa, que era tão interessante conversar com o seu jardineiro como com o Marquês das Couves. A imagem de uma elite requintada é falsa e perigosamente simples. È evidente que existem algumas pessoas “superiores” neste mundo, mas é de uma grande ingenuidade partir do princípio que possam estar distribuídas de acordo com o seu apelido, título académico, fortuna pessoal ou notoriedade social. A treta dos prémios Pessoa, Camões, Nobel ou sopas Knorr é sempre a mesma. Meia dúzia de “iluminados” elege um pobre desgraçado que fica todo contente e convencido que fez algo de importante. Um destes dias até elegeram um bispo, que dum momento para o outro se viu com a conta bancária aumentada e com a fé diminuída.

FALO DISTO tudo a propósito de quê? A propósito das palavras e imagens que nos fascinam. Cuidado com os títulos académicos e mundanos, assim como com as imagens “grandiosas” e “sofisticadas”. Porquê? Porque nos levam a pensar que o dispêndio de dinheiro é garantia de divertimento e realização pessoal. Porque nos levam a negar á fruta sobre a bancada da cozinha um espaço no nosso conceito de beleza. Porque nos leva a pensar que só os grandes motivos, as grandes paisagens e os grandes dramas, são dignos de serem fotografados. Porque nos tornam snobes e insensíveis á simplicidade da vida. Porque a capacidade de escrever sem erros, e identificar alguns pintores ou fotógrafos, não é em si, suficiente para estabelecer a existência de algo tão difícil de definir como a inteligência. Coisa que não abunda em comités. Enfim, porque nos fazem esquecer que uma boa foto é uma janela para o mundo, e esse mundo pode ser próximo e imediatamente reconhecível, como o nosso, não precisa necessariamente de ser o Everest a Amazónia ou o ultimo massacre do cartel de Cali. Esqueça a fama e o reconhecimento, simplifique, fotografe aquilo que lhe apetece, ou o que “tiver mais á mão”, e é bem capaz de ter uma surpresa. Boas fotos. OPV       


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E você sofre de “visão cega”?  (Proust.kom) Inserido Wednesday 16 December 2009 22:02

“Uma estranha amálgama de sonho e realidade, o casamento perpétuo do granito com o arco-íris”. Esta é uma das definições (Virginia Woolf) mais interessantes que já li. Serve para descrever poeticamente essa estranha criatura que é o ser humano.

O EU é uma ilusão, assim como um romancista cria uma narrativa, uma pessoa cria uma sensação de ser. O Eu é a nossa obra de arte, uma ficção criada pelo cérebro para poder retirar sentido da sua própria desunião. As fotos que o leitor faz, parecem-lhe desinteressantes ou banais? Provavelmente o problema não é da sua câmera, mas sim dos seus olhos, ou melhor, da sua atenção. O simples acto de olhar com olhos de ver é estimulante, pode ser um objecto ou uma pessoa, sempre que prestamos atenção a um estímulo específico aumentamos a sensibilidade dos nossos neurónios. No entanto se o Eu não prestar atenção, a percepção nunca se torna consciente. Só tomamos consciência da sensação, objecto ou pessoa, depois de esta ter sido seleccionada. Se fotografar “mecanicamente” sem realmente prestar atenção aquilo que fotografa, então não se deve admirar se o resultado for “frio” e “mecânico”. Enfim, desinteressante.

HÁ UM FENÓMENO que se chama a “visão cega” e que é provocada por lesões nas zonas visuais primárias do cérebro. Embora este pacientes pensem que são cegos, na verdade conseguem ver, pelo menos inconscientemente.  Os olhos continuam a transmitir informação visual, e a as partes não danificadas do cérebro continuam a processa-las, mas a pessoa é incapaz de aceder conscientemente aquilo que o seu cérebro sabe. Por conseguinte tudo o que vêem é escuridão. Como se diferencia isto da verdadeira cegueira? Estes doentes conseguem ter nalgumas tarefas visuais um desempenho impossível nas pessoas totalmente cegas. Por vezes passa-se o inverso quando fotografamos, pensamos que vimos algo de interessante, mas na fotografia realizada o objecto revela-se banal. Não somos cegos, mas é como se fossemos. A fotografia excelente está mesmo ali ao lado, mas somos incapazes de a ver. Por uns meros centímetros, metros, simples preconceitos, ou pura cegueira “disparamos ao lado”.

ONDEO é que eu quero chegar com tudo isto? Quero chegar á parte mais interessante, á consciência divorciada das sensações. Nestes casos de “visão cega”, embora o cérebro continue a “ver”, a mente não consegue estar atenta a estes dados visuais. Passa-se o mesmo com o fotógrafo descuidado, o fotógrafo sem arte ou talento, vê mas não vê. Ou melhor, só vê aquilo que lhe ensinaram a ver. Um “fotógrafo” que só sabe de fotografia, nem de fotografia sabe. È evidente que temos de transformar as nossas sensações através da atenção, controlada pelo Eu, antes de podermos vê-las. Isto significa estudo e cultura. Praticas cada vez mais em desuso nos dias que correm. Uma sensação separada do Eu não é sensação nenhuma. Isto não quer dizer que devemos tentar construir um super ego. Porque ainda mais interessante é o facto de que a nossa cabeça contem mais de cem biliões de células eléctricas, mas nenhuma delas é nós, tão pouco nos conhece, ou quer saber de nós para alguma coisa. De facto, nós nem sequer existimos. È frustrante mas é a mais pura das verdades. O cérebro não passa de uma fusão finita de matéria. A identidade é a coisa mais íntima que sentimos e no entanto emerge de um impulso de electricidade celular. Porque é que o Eu parece real quando não é? Até agora ninguém conseguiu responder a isto. Porque é que o seu Ego se intromete entre si e a sua fotografia? Talvez você possa responder a isso.  

A MODERNA neurociência diz-nos que o Eu é uma ficção que não pode ser tratada como um facto. Compreendermo-nos a nós mesmos como obras de ficção é compreendermo-nos o máximo que conseguimos. O Eu não pode ser evitado e a realidade não pode ser decifrada. A nossa Fotografia pode estar repleta de pequenos “milagres” quotidianos, de pequenas irrelevâncias. Pode estar destinada ao baú do esquecimento. Não resolve, nem irá resolver nada, mas também nada nesta vida é alguma vez realmente resolvido. Os mistérios da “realidade” persistem, a “grande revelação” jamais surgirá. Se as nossas fotos se situam ao nível da experiencia comum, uma arvore é uma arvore, ou uma mesa é uma mesa, não devemos ver mal nenhum nisso. È banal, comum, mas ao mesmo tempo é um milagre, um êxtase. È a frágil realidade da nossa experiencia. Boas fotos. OPV   


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Diz-me o que bebes e eu digo-te como fotografas.  (Proust.kom) Inserido Friday 11 December 2009 22:17

OK, OK, estou a exagerar. Pronto, está bem, o meu amigo(a) é abstémio e consegue fazer fotos em condições. No entanto, poderá uma coisa ter a ver com a outra? Provavelmente até tem, pelo menos na maneira como os nossos cérebros funcionam. Não resisti a usar este título, depois de ler um texto num “pequeno” livro, que recomendo a todos aqueles que se interessam por esta “pequena” coisa, que temos entre as orelhas. Não, não é o chapéu, é o cérebro. O livro chama-se “Proust era um neurocientista” e é de Jonah Leherer. Por acaso, o capitulo a que me refiro não é dedicado a Proust mas sim a Auguste Escofier. Um cozinheiro, ou melhor, O Cozinheiro, esse mesmo, o pai da cozinha francesa.

PARA provar, que é a soma das experiencias passadas encerradas no cérebro que enquadram as sensações, Frederic Brochet, da universidade de Bordéus realizou duas experiencias separadas e perversas. Só vou abordar uma delas. Resumidamente, este senhor fez o seguinte; pegou num vinho Bordeaux mediano e serviu-o em duas garrafas diferentes. Uma das garrafas tinha um rótulo de um grande vinho, um Grand Cru, a outra tinha um rótulo de vinho de mesa normal. Apesar de provarem exactamente o mesmo vinho, os “peritos” deram qualificações praticamente opostas às duas garrafas.  Já adivinharam, o Grand Cru era “agradável, com notas de madeira, complexo, pata ti, pata ta…” O outro, o vinho de mesa normal, era “fraco, curto, leve e estava estragado”. Quarenta peritos disseram que valia a pena beber o vinho com o rótulo de luxo. Apenas 12 disseram o mesmo acerca do vinho barato. Por esta e por outras, é que as palavras “perito”, “profissional” e “especialista” me causam calafrios. 

O QUE esta experiencia sobre o vinho esclarece, é a omnipresença da subjectividade. Quando bebemos um gole de vinho não saboreamos primeiro o vinho e depois o seu preço. Saboreamos tudo duma vez, a cor e o preço. O cérebro humano foi concebido para acreditar em si próprio. De tal maneira que os preconceitos parecem factos. A opinião não se distingue da sensação real. Se pensarmos que um vinho é barato, ele saberá a barato. As expectativas acerca do vinho, podem ser mais poderosas que as qualidades físicas, e reais, do próprio vinho. A fiabilidade dos sentidos, e a sua susceptibilidade às nossas crenças e preconceitos, coloca um problema bem real.

O QUE TEM tudo isto a ver com a fotografia? Tem tudo, ou quase tudo, porque que o que faz com que esta experiencia sensorial seja interessante, é a conclusão que a experiencia pessoal molda a sensibilidade. Cada um de nós habita literalmente um cérebro diferente, sintonizado com os nossos desejos privados. Não há teoria, formula ou receita, que possam ocupar o lugar da experiencia. Fotografar aquilo que quero é uma coisa, fotografar aquilo que penso que os outros querem ver é outra historia completamente diferente. Normalmente nesta ultima opção, sai asneira, no mínimo sai cliché ou algo de banal. Os palpites de faz assim ou assado, usa esta ou aquela lente, normalmente não resultam. Quando fotografamos, se nos convencermos que estamos simplesmente a “tirar” uma foto, é uma simples foto que obtemos. Pelo contrário, se nos capacitarmos que estamos a fazer algo mais que uma simples foto, então, podemos ter uma surpresa, e criar algo com algum valor estético e até artístico. Como na experiencia do vinho, não é por ter uma câmara (garrafa) cara á sua disposição, que o resultado final é o melhor. O que sugere a foto deste artigo? Será que estou grosso, ou estou simplesmente a imitar o Francis Bacon? Aceitam-se palpites. Boas fotos e cuidado com as ressacas. OPV 


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Quer melhorar a sua Fotografia? Leia Proust!  (Proust.kom) Inserido Saturday 05 December 2009 21:13

O TÍTULO deste artigo parece um bocado pretensioso? Pois parece e se calhar até é, mas não deixa de ser verdade. Não se trata de uma pretensa ostentação intelectual, mas da pura realidade nua e crua. Em que medida é que percorrer as cerca de três mil e duzentas páginas (depende da edição) distribuídas em sete romances, que na realidade são só um, “Em Busca do Tempo Perdido”, pode melhorar a sua fotografia? Uma das razões é porque, ler esta obra singular, não é ler Proust, mas sim ler-se a si mesmo. Ser um leitor de Proust é uma experiencia singular. São frases torrenciais, algumas muito longas, com reflexões profundas e parágrafos de quatro ou cinco páginas. O tema pode ser o mais prosaico e corriqueiro, que ele consegue transformar isso em alguma coisa de inacreditável e de relevante. Não é esse um dos segredos da fotografia? Transformar o irrelevante em algo de notável? Pois bem, este livro consegue faze-lo como nenhum outro. Na minha humilde opinião, “Em Busca do Tempo Perdido” é a maior obra de literatura que alguém já escreveu, e não é só no número de páginas.

BRASSAI, um dos grandes fotógrafos do século XX, descrevia este colossal romance, como uma “fotografia gigantesca”. Também parece não haver duvida, que uma das coisas que mais influenciou Proust, foi o advento da fotografia e a sua imagem latente. Neste livro genial, Proust consegue conjugar visões e retratos com pensamentos, ligando o particular ao geral. È pura visão e sensação. A sua personagem principal é um esteta da vida diária. Tudo funciona como uma máquina do tempo, em que a fotografia da memória se entrelaça com a perspectiva da visão daquele que escreve. O autor consegue transformar o frívolo em algo de essencial. Demonstrando assim que o interesse de um livro (ou foto) reside menos na realidade que reflecte do que na visão original que expressa.  

È EVIDENTE que ler Proust não é nada fácil, bem pelo contrário. Muito boa gente diz que leu, mas na realidade não leu. Numa abordagem mais simplista, este livro parece ser uma grande maçada e um enorme aborrecimento, mas isso é simplificar, porque na realidade não o é de todo. Este não é um livro para se ler no comboio ou no intervalo de alguma coisa. Requer tempo e concentração, lê-se quinze ou vinte páginas e a história parece que não anda. Proust não tem essa preocupação. O contexto é numa escala muito ampla e o seu objectivo é descrever minuciosamente a mais pequena vivência. Imagine um super zoom que pode ser usado desde a grande angular á teleobjectiva mais longa, passando pelo macro. È mais ou menos assim que a narrativa funciona. Tanto nos dá uma perspectiva muito ampla como nos mostra todos os pormenores e o mínimo detalhe. Ler Proust é um privilégio que nos permite contactar um grande intelecto, que por algum tempo partilhou a sina da humanidade neste pequeno berlinde terrestre. 

ESTE MAGNIFICO livro tem alguma fórmula que possa mudar a sua maneira de fotografar ou até a sua maneira de encarar a vida? Não, não tem. Não há fórmulas, nem há receitas. No entanto, se tiver paciência e tempo para o ler, descobrirá uma verdadeira obra de arte e descobrirá também, que só pela arte é que podemos sair de nós mesmos. Na vez de contemplar um só mundo, o seu, verá que ele se multiplica. Descobrirá também que Proust embirrava com lugares comuns. Porquê? Porque segundo ele, os lugares comuns ou clichés, fazem-nos acreditar que relatam ou descrevem perfeitamente uma situação, quando apenas afloram a sua superfície. Segundo Proust, a maneira como descrevemos (ou fotografamos) o mundo, deve dentro do possível, reflectir a maneira como o vivenciamos. Assim sendo, é evidente que todo o fotógrafo (ou escritor) é obrigado a criar a sua linguagem. Pois aí é que reside o grande busílis da arte e da criatividade. È mais fácil falar com as palavras dos outros. Então e se eu crio algo de novo e ninguém me entende? È assustador não é? Pois é, mas não há outra solução. Experimente ler Proust, pode ser que encontre alguma inspiração. Se tal não acontecer, pode oferecer-me os livros e chamar-me nomes. Boas fotos. OPV         

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