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Pinktura

B.V. - Bacon e Vodka  (Pinktura) Inserido Monday 15 September 2008 21:16

Mutante

Um dia em New York, Francis Bacon comentou para o seu barman favorito; “quando morrer, metam o meu corpo num saco de plástico e atirem-no para a sarjeta”.

Pois bem, não só não o mandaram para a sarjeta, como o tornaram num símbolo da pintura inglesa, apesar dele ter nascido em Dublin. Bacon era um iconoclasta, praticamente anti tudo. Se foi parar ao inferno, podemos ter a certeza que está lá como se estivesse em casa. O que não podemos ter a certeza é se estará satisfeito com o destino que a sua pintura está a levar. Os preços dos seus quadros estão atingir valores estonteantes. No entanto quem os está a comprar por atacado são os russos. Mais precisamente Abramovich e a namorada, a também russa Daria Zhukova, ex-modelo, ex-estilista, que vai abrir uma mega galeria de 28 mil metros quadrados, a GCCC em Moscovo. È filha de um dos muitos oligarcas que arruinaram o país, Aleksandr Zhukov. Caricatamente, esta nova tastemaker do mundo da arte, quando questionada sobre um artista de eleição, não conseguiu nomear nenhum e alegou que era péssima com nomes. Quer dizer, vai ter uma galeria de arte para fazer frente á Tate Modern, convida (por 1 M €) Amy Winehouse para um concerto na inauguração, mas não sabe os nomes dos seus pintores favoritos. Estão bem uma para a outra.  

No entanto, também podemos estar enganados, e o facto, da sua obra estar a ser comprada com dinheiro duma cor esquisita, pode estar a dar um grande gozo a Bacon, enquanto bebe mais um copo com Mefistófeles. A sua obra centrada na desconstrução do corpo humano, escancarado num grito de horror, pode insuflar nos visitantes russos ideias sado masoquistas e auto mutiladoras. Os caminhos que uma pintura pode tomar são misteriosos. Nunca saberemos se ela não descansa até ir parar a um sítio onde seja verdadeiramente apreciada. Enfim, onde se sinta em casa. Também não sabemos, até onde, uma pintura, mortalmente sexual como a de Bacon estende as suas garras psicóticas. Se daqui a uns tempos, começarem a aparecer em Moscovo, corpos como os que Bacon pintava, alguém vai acabar por concluir que a influencia do mestre, vai muito para alem da tela. Penetra na “alma”, e retorce-a até lhe dar vontade de sair do miserável corpo que habita. Então, com a tendência que os russos têm para a vodka e para a depressão, vai ser um ver se te avias nas cenas de faca e alguidar. Bacon e Vodka, uma mistura explosiva. Tem que se ter muito cuidado com aquilo que se vê, e Bacon não é para espíritos fracos e influenciáveis, moldados por longos anos de medo e paranóia. Será que Bacon pintou o que pintou, já a pensar nos Russos? Uma espécie de vírus alucinatório adormecido, que descansa na superfície das suas telas até um par de olhos, propensos para o delírio, lhe cair em cima, e entrar em parafuso? Estou a exagerar? Talvez esteja, afinal isto é um texto surrealista, mas depois não digam que não avisei. OPV

 

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