Monocular
Cheguei a casa e dei com o Dick deitado em frente á televisão, a ouvir atentamente as explicações daquele rapaz do lançamento do peso. Estava num programa em directo, e mostrava-se constrangido com a interpretação nacional que foi dada aquela “história da caminha”. Com uma adolescência difícil, o simpático jovem via no atletismo uma saída para evitar um futuro sombrio. Eis a análise do Dick. Primeiro, o jovem tem sentido de humor, e o resto do país não tem. Já disse antes, que a “história da caminha” me pareceu uma tirada inteligente, porque tenta através do humor exorcizar um mau momento. È preferível a, chorar baba e ranho, e flagelar-se em publico. Metamorfoseia um acontecimento pretensamente desportivo, noutro meramente comercial. X de apoio = Y de medalhas. Segundo, o jovem é ingénuo e o resto do país ainda é mais. Se ele pensa que teve uma adolescência difícil, que pense duas vezes. O bairro problemático ou o gang conflituoso, são uma brincadeira de crianças, face á máquina comercial e trituradora onde foi parar. No gang ou no bairro, se fizesse merda, davam-lhe um enxerto de porrada e amigos como dantes, a vida contínua. No mundo “olímpico” é mandado para casa (casota) com o rabo entre as pernas. Transforma-se numa espécie diferente de “marginal”, tornando-se alvo de humilhação nacional. No bairro, ainda podia partir umas cabeças como desabafo. Na montra do desporto nacional, é castigado e ainda tem que lamber a mão que zurze o chicote. Tem que se ter cuidado com aquilo que se deseja. Terceiro, as declarações deste jovem, comparadas com as do homem da vela que ficou em quarto, são completamente inocentes e até infantis. O que é que vai sair da cabeça deste cachorro? Nem me atrevo a perguntar porquê? Mas ele não precisa, e continua. Porque realmente, deve ser muito difícil passar tantos anos a fio, a fazer vela, naquela horrível baia de Cascais. E só com duzentos e tal contos por mês para tão estafante actividade. Se lhe dessem quinhentos, de certeza que o homem até ia para a pesca do bacalhau. Sim, porque isto de andar de cabelos ao vento, para trás e para a frente, encavalitado num barco pequenino, pode parecer muito glamoroso, mas não enche a barriga a ninguém. È preferível trabalhar num escritório, sempre tem ar condicionado. No fundo o que está mal, não são estas ou aquelas declarações. O que está mal é pagar a alguém para fazer aquilo que gosta, mesmo quando se sabe que esse alguém, só pelo seu “talento” não vai a lado nenhum. Isto é válido para tudo, seja fazer filmes, teatro, música ou desporto. O país não tem que andar a pagar (através da CGD) para a uma fadista cantar, o treinador X treinar, ou clube Y jogar. E não tem certamente, que produzir, atletas, escritores ou cantores. Tem é que dar condições ao caldeirão social, para que este cozinhe e apure esses valores. Se um realizador de cinema nacional, for tentar convencer o A. A. a produzir um filme qualquer, este manda-o falar com a Galp. Se for o Spielberg com um projecto de milhões, é provável que o homem nem pense duas vezes. Se for o lançador de peso (da caminha), pedir um patrocínio, põem-no a carregar cortiça. Se for o CR7, compra-lhe o passe, e a seguir cota-o na bolsa, onde até as suas cuecas usadas podem render milhões. Ora um tipo que ganhou tantos milhões graças aos sobreiros, deve saber o que faz, ou não? Em contrapartida, porque que é que, um país com tantos milhões de pessoas não sabe fazer este tipo de gestão? Quero fazer um filme? Tudo bem, desenrasco-me, e arranjo quem mo produza, não vou a correr ter com o estado para me arranjar uns trocos. Lembram-se do filme Branca de Neve, rodado numa Lisboa ás escuras? Desconfio, que este cão, anda ler alguns livros ás escondidas. Para terminar, e sem segundas leituras, parabéns ao saltador Nelson Évora, que mesmo assim não conseguiu saltar tanto como o “comandante”. De manhã saltava para fora do cargo, á tarde saltava para dentro e á noite saltava sabe-se lá para onde. A alternativa motorizada é tão, ou mais assustadora. Que raio se passa na cabeça das pessoas deste país para se julgarem aptas para determinada tarefa, para a qual, não tem talento absolutamente nenhum? O outro não tem habilitações, nem para projectar uns galinheiros na Guarda, mas acha-se suficientemente iluminado para governar a nação. Parece-me que os humanos neste país, estão a ficar muito medrosos e melindrosos. Tudo os afecta, assusta e ofende. No mundo dos cães, quem enfia o rabo entre as pernas, está a pedir para (não) ser mordido. No vosso, está a pedir para (não) ser comido. Um ultimo conselho do Dick: o Nelson que esconda bem a medalha, porque quando cá chegar, o ministro das obras públicas vai “confiscá-la” de imediato. Porque, com o valor que lhe é atribuído, deve dar para pagar, pelo menos, metade do novo aeroporto de Lisboa: OPV




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