Óbidos
Segundo um artigo do Sunday Times, no Japão, quem tiver dinheiro que chegue, pode resolver qualquer problema amoroso. Ver-se livre do parceiro indesejável, recuperar um que ande perdido, voltar para o ou a ex, estabelecer uma relação com alguém que viu mas ainda não conhece. Enfim, o que quiser, há empresas que ajudam as pessoas utilizando agentes, tecnologia sofisticada, (micro câmaras, gravadores sofisticados) e psicologia a condizer.
O primeiro passo é a investigação, descobrir o que for possível sobre os hábitos quotidianos do alvo, os gostos e desgostos. O segundo passo é engendrar uma sucessão de encontro entre o “agente” e o alvo. O terceiro é seduzir. Para que conste, há agentes femininos e masculinos. A agência ACYours cobra cerca de 9400 € por três meses para conseguir um rompimento, e mais de 15.600 € para voltar a juntar.
Claro que esta actividade dá origem a situações caricatas. Um vendedor de 50 anos e careca, com um fato foleiro, presume que é irresistível para as mulheres. Não fica desconfiado quando uma jovem encantadora mete conversa com ele. Segundo os “agentes” as mulheres são mais desconfiadas, não tomam como garantido que um homem atraente meta conversa com elas. Estão mais interessadas no “amor” do que no sexo. Claro que o “agente” sabe disto e transforma-se no “príncipe encantado”. È simpático, atencioso e delicado, tudo o que ela sempre desejou encontrar num homem. Enfim, aquilo que nós definimos como engate e fazemos de forma “atabalhoada”, deixando ao acaso, ou á “sorte” o desenrolar dos acontecimentos, os nipónicos destas agencias, fazem-no coreograficamente e com uma meta definida. Qual é o meu interesse nesta historia? O mesmo de sempre, comprovar que aquilo que tomamos por consistente não o é de todo. O velho lema, A REALIDADE È UMA FICÇÃO, é cada vez mais pertinente. Um homem ou mulher, que seja manipulado desta maneira, acaba por viver uma ficção como se fosse “realidade”. Aí entra a velha pergunta, o que é a “realidade”? Será que enquanto a pessoa vive a ilusão, não vive na “realidade” daquele momento? Haverá uma diferença assim tão grande entre estas encenações, e aquelas que “nós” construímos para “conquistar” os, ou as nossas, respectivas caras metades? Provavelmente, não fomos tão maquiavélicos, mas não deixamos de ser em certa medida manipuladores e manipulados. Cada um é que sabe aquilo que fez (ou deixou de fazer), para conquistar o “objecto” do seu desejo. Mas ninguém sabe o que fez o “outro” para se “deixar” conquistar. Levando a paranóia ao extremo pode-se perguntar; o teu “homem ou mulher” é genuíno ou não passa dum “agente acidental”? Parece um exagero? Pois parece, mas também podemos viver toda a vida ao lado de outra pessoa e nunca a conhecermos. Convêm ter cuidado com aquilo que se deseja. OPV
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