Black and Blue
Na revista Sábado desta semana vinha um artigo interessante, ou pelo menos assim parecia. Um “pintor” desconhecido ou incompreendido, que parece um sexagenário inofensivo, adopta o pseudónimo de Varett e transforma-se num “guerrilheiro” artístico. Resumidamente, a guerrilha é esta; o “artista” pega numa pintura de sua autoria, e á socapa, coloca-a num museu badalado, junto a outras pinturas expostas de autores reconhecidos. Não é propriamente uma novidade, um inglês de nome Banksy, já fez isto e tornou-se famoso graças a isso. Esta é a parte interessante, o lado subversivo da coisa. Mas depois a historia descamba para o melodrama. Varett é afinal, um pintor que se sente frustrado, porque já percorreu a via-sacra das galerias e viu a sua obra ser sistematicamente recusada. Assim, resolve expor nos maiores museus, mesmo que clandestinamente. Como disse antes, até aqui tudo bem. O pior está para vir. Numa dessas incursões, resolve deixar uma carta por trás da sua pintura. Nessa carta dirigida a Joe Berardo, propõe entre outras coisas, um projecto para ajudar os artistas desconhecidos, a terem uma oportunidade. Para isso, sugere a criação das “Casas do Berardo”. Uma “genialidade” inspirada nas casas do Benfica, que deveriam espalhar-se pelo país. Serviriam segundo palavras do autor, “ para dar vida a muitos mortos e desconhecidos que se arrastam por este país fora de pincéis penhorados”. Para isso, bastaria o nome de Berardo. Nesta altura do artigo, não posso deixar de exclamar “Are you shitting me?”. Ou na velha língua de Camões, “estás a gozar comigo”? Quer dizer, com os possíveis leitores. Afinal qual é a ideia? Termos seis milhões de Paulas Rego? Ou na versão de terror, seis milhões de Calhaus e Sarmentos? Donde vem esta obsessão de expor á viva força, esta necessidade de ser famoso? Se a maioria (99%) dos “artistas” tivessem vergonha na cara, não mostravam a merda que fazem. A ninguém! Sim, porque é preciso dez milhões de portugas para produzir uma Paula Rego. Ela pelo menos, sabe o que faz, e porque o faz. Os Calhaus, e afins, fazem-me lembrar uma história verídica, passada numa vernissage de um pintor amigo. A dada altura da noite, um outro amigo meu, arquitecto de profissão, “segreda” ao autor das obras expostas. “Eu vomito melhor, do que aquilo que tu pintas!”. O pintor encaixou, fez um sorriso amarelo e foi buscar mais um copo. O arquitecto não deixava de ter razão, mas, o pintor não era um verdadeiro artista, porque se não, tinha respondido na mesma moeda; “aquilo que eu defeco, tem mais estilo, que os prédios que projectas”. O facto de ambos terem razão, prova que, está tudo doido, nesta autentica feira de vaidades em que se transformou a Arte, seja ela, pintura, escultura, fotografia ou arquitectura. A necessidade doentia de ser reconhecido e valorizado, leva a ideias mirabolantes, como alguém que murmura para si mesmo; “Vejam, vejam, fui eu que pintei, projectei ou esculpi isto, sou genial não sou”? Esta necessidade remete-nos para personalidades patologicamente narcísicas. O caso do “guerrilheiro” Varett, é um bom exemplo de como se vende a alma ao Diabo. Não lhe chega o prazer de pintar, é preciso ser reconhecido, nem que seja á força. Quer entrar para o sistema, viver como o inimigo. È como se um terrorista a sério, desistisse de pertencer á Al Quaeda, desde que lhe arranjassem uma casinha em Manhattan, ou até no Bronx. Para terminar fica um conselho ao Varett; se quer expor a sua pintura, fotografe-a e publique-a na Internet, terá com certeza mais visitantes que em qualquer museu. Já agora, mantenha-se na “clandestinidade”, lembre-se que neste país, há muitíssima gente que “vomita” melhor que o senhor. OPV
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