Fly
Um espelho duplica e amplia o ambiente que reflecte. Podemos especular se também não duplicará ou afectará a energia mental que circula entre o original e o reflexo. Por aquilo que podemos ver através da comunicação social, sejam revistas, jornais ou televisão, acabamos por concluir que os espelhos devem andar todos loucos. È incrível, o número cada vez maior, de pessoas que se deixam iludir, e misturam o mundo produzido pelo espelho, e a “realidade” onde estão inseridas. Essa “realidade” é cada vez mais abstracta, está alicerçada em números e signos, sejam de contas bancárias ou de cartões de crédito. Os signos ou símbolos estão nas imagens e produtos de marca que é obrigatório usar. Os exemplos são imensos, temos o apresentador de televisão anafado, que usa calças e camisas (ridículas), uns números abaixo, e que há muito devia ter deitado fora. Há o chefe de estado que é obrigado a usar tacões porque casou com quem não devia (ou devia), e não está á altura do sarilho que arranjou. Há aqueles governantes, cujo único traje que deviam usar, era, o fato-macaco, mas que usam Armani. Existem as velhas coquetes com nomes ridículos, que como o Eusébio vivem das glórias passadas e ditam palpites sobre o bom gosto actual. Existem os casos completamente perdidos e hilariantes, de esquizofrenia total, como é o caso dum mutante de pavão, que passa de gigolo a marchand de arte, de marchand a entertainer, e de entertainer a diva da canção. O simples facto de ninguém vestir esta personagem com um colete-de-forças, e o enfiar num manicómio, revela que aqueles que o rodeiam e dele se aproveitam estão tão doidos como ele. A fotografia, ou imagem fotográfica é muito cruel para estas pessoas. Devido ao efeito “espelho louco”, estes indivíduos insistem em ver uma coisa que não está lá. Mas o mais trágico, são todos os outros (e não são poucos) que “compram” essas imagens estragadas. È muito triste ser-se “fotógrafozinho”, e para sobreviver, ter que fotografar este autentico circo de horrores. Seja nacional ou internacional. Lá fora, basta recordar o Michel Jackson. Antes fotografar gorilas para a Nacional Geographic (infinitamente mais bonitos). O tamanho do ego destas criaturas (não são os gorilas) não pára de me surpreender. È espantosa a desfaçatez com que exibem a sua mediocridade. Sejam chefes de estado, cantores pop, ou aspirantes a actores e actrizes. Todos eles são completamente enganados por essa nova espécie de “especialistas” que são os consultores de imagem. Lembram-se daquela velha máxima; quem com ferro mata, com ferro morre? A versão moderna é; quem vive pela imagem, morre pela imagem. Onde pára o pudor por estes dias? Ninguém tem vergonha nem modéstia? Um indivíduo pode considerar-se fotógrafo só por andar a subir ás árvores para fotografar estas e outras aves raras? A fome, e a necessidade de um tecto, justificam tudo? Quer-me parecer que o caos aparente da civilização actual, tem um forte impacto, e implica o caos real do carácter individual. Assim, se algum dia lhe passar pela cabeça, ganhar a vida a fotografar esta bizarra fauna humana, reconsidere e ofereça-se par a National Geographic. Animal por animal, mais vale trabalhar com os originais. Estes podem morder-lhe o corpo, mas pelo o menos, não lhe roem a alma. OPV
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