Tunnel of dog
Mais uma vez encontrei o Dick em frente á televisão completamente deprimido. Sabia que me ia arrepender, mas perguntei na mesma, então o que é que se passa? Bom, entre tantas desgraças que acabei de ouvir no noticiário, há duas que me deixaram de boca aberta e de orelhas caídas. Uma foi a de um assalto a uma ourivesaria, onde os ladrões não roubaram nada mas deram um tiro na cabeça ao proprietário. Outra é, a de um casal de idosos, que foram agredidos, um deles até á morte, para no fim lhes roubarem dez míseros euros. E eu, é que sou o animal? Concordo que é uma bestialidade. O Dick indignou-se, mas resolveu esclarecer-me. A liberdade e a segurança são incompatíveis. Estás a ver quando vais passear comigo? Se me levares pela trela, não tenho liberdade para cheirar o que quero, ou mijar onde me apetece. Por outro lado, se me deixares solto, e como sou um bocado para o grande, (enorme) as pessoas sentem-se inseguras. Resumindo, se estiver livre, crio o sentimento de insegurança, se estiver seguro, adeus liberdade, percebes? Sim, percebo (sabichão dum raio) mas, o que tem isso a ver com os crimes do noticiário, e a crise de insegurança? A segurança, ou falta dela, é um sentimento que uma vez instalado, se alimenta a si mesmo. Quanto mais brutal é o crime, mais alimenta o imaginário global. No entanto, o que se passa neste país, não é do foro criminal. Não é? Não, é do foro da psicanálise. È a besta que há em cada ser humano a imergir. Em alguns imerge mais rápido do que noutros. Um ladrão não precisa de matar para roubar. Quem mata “gratuitamente” é o psicótico. Não são mais policias, ou mais prisões, que vão resolver este problema. Como de costume vou arrepender-me de perguntar. Então como é que se resolve? Não se resolve, está na vossa natureza, habituem-se a viver com isso! Queres ouvir uma história? Adiantará dizer que não? Então o Dick desbobinou a história dum cão amigo dele: era um macho, um rafeiro alentejano. Sempre que aparecia uma cadela por aquelas bandas ele ficava excitado e intratável. O dono batia-lhe com um ritmo pavloviano (onde raio aprendeu isto?). Isso aconteceu tantas vezes que o pobre do meu amigo já não sabia o que fazer. Quando farejava uma cadela, escondia-se no jardim com as orelhas caídas e o rabo entre as pernas, a ganir. Onde quer ele chegar com essa história? Nós, os cães, ainda admitimos sermos castigados por uma asneira, (sem pancada claro) como roer o tapete ou um sapato. Mas com o desejo é outra história. Nenhum cão que se preze aceita ser castigado por seguir os seus instintos. O que é ignóbil no caso do meu amigo, é que aquele calmeirão, começou a odiar a sua própria natureza. O dono não precisava de lhe bater. Ele já se castigava a si mesmo. Ainda lhe disse que poderia ser pior. O dono podia mandar castra-lo, ou abate-lo a tiro. Sabes qual foi a resposta dele? Lá no fundo ele preferia ser abatido. Antes isso, a ter que negar a sua natureza ou passar o resto da vida na sala de estar, a farejar o gato e a ficar obeso. Moral da historia: o homicida não consegue contrariar a sua natureza, cabe ao “dono” castrá-lo ou abate-lo. Caso contrário, ele vai acabar por roer-lhe mais alguma coisa do que um simples chinelo. O meu cão a defender a pena de morte? Se abatem os cães raivosos, porque não hão-de abater os homens raivosos? Franzi o sobrolho. Pronto, pronto, já vi que és muito civilizado, que tal prisão perpétua e uma cadeia só para crimes de sangue, com trabalhos forçados? Sugere ele, e também aconselha; até lá, habituem-se! Ou então comprem um cão! OPV
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