Página Inicial Data de criação : 07/12/04 Última actualização : 08/11/28 20:28 / 191 Artigos publicados
 

Muro visual.  (Sobre Fotografia) Inserido Friday 22 August 2008 19:17

Zen sand  

 

"A hipótese de que as imagens tenham alma parece confirmada pelos efeitos da minha máquina sobre as pessoas, os animais e os vegetais emissores".
(Adolfo Bioy Casares, A Invenção de Morel, 113).  

 

È uma observação perspicaz e uma hipótese plausível, no entanto alma é capaz de ser um termo um pouco datado (humanamente), mas que uma imagem (neste caso uma foto) tem identidade própria, disso não tenho duvidas. No fundo, aquilo que o fotógrafo faz é seleccionar imagens. Selecciona-as porquê? Porque de alguma maneira elas se lhe impuseram, seleccionaram-se a si mesmas. Para simplificar, esqueçamos os milhões de fotógrafos e os biliões de imagens, só um fotógrafo e uma única imagem. Estando o fotógrafo imerso num mundo “virtualmente” visual, porque é que determinada foto se impõe? Com um número quase infinito de ângulos, planos, pontos de fuga, variações de luz e enquadramentos ao seu dispor, ele toma uma opção? Ou não tem opção? Só pode fazer aquela foto e não outra? È o fotografo que faz a imagem, ou é a imagem que faz o fotografo? Parece uma pergunta disparatada não é? Pois é, mas se do universo de todos os fotógrafos (largos milhões), a maioria 99.999% afirmar que, a primeira hipótese é que é verdadeira, então tenho sérias razões para acreditar, que, a segunda é que é “verdade”. A unanimidade sempre me pareceu um bom indicador do que algo está errado.          

Há milénios que lidamos com imagens, símbolos e mitos, que, supostamente deveriam ajudar-nos a descobrir quem somos, ou no mínimo, o que somos. Que sabemos nós? Nada! Não sabemos o que (nem quem) somos. Pior ainda, não sabemos que “realidade” é esta onde estamos submergidos! A alucinação colectiva em que a humanidade está mergulhada é pontualmente quebrada, por aqueles seres humanos que enlouquecem. A mente funde-se com o universo circundante e, os códigos de sobrevivência, vão literalmente “á vida”. O muro visual desaparece. As etiquetas e definições não têm lugar nas identidades vazias. Precisamente por estarem vazias é que cabe lá tudo. Os outros, os “lúcidos”, continuam a trabalhar na mesma frequência. A expandir o self, através da construção e desmaterialização permanente da imagem. Não vemos só aquilo que queremos, o “universo” entra-nos pelos olhos dentro. Quando pensamos que seleccionamos algo com a nossa máquina fotográfica, estamos na realidade a assentar mais um tijolo no longo muro da “realidade visual” que rodeia a nossa existência. Então, quem não faz fotografia, tem esse mesmo muro a rodeá-lo? Obviamente que tem, mas provavelmente nunca se aperceberá dele. Mesmo entre aqueles que praticam a Arte da Fotografia, só alguns, e só ao fim de um certo período de tempo, se apercebem do “muro visual”. È evidente que há uma subtil diferença, entre quem “tira umas fotos” e quem tenta, ou consegue usar a Fotografia como Arte. A diferença é, que, no primeiro caso o olhar do indivíduo é solicitado pelo “objecto” que lhe é familiar. Sejam familiares, amigos, monumentos ou paisagens. As suas opções são aleatórias e sem fio condutor. È (quase) como um pintor Naïf. Passe o pleonasmo, o olhar não está treinado, e só “vê aquilo que vê”. No segundo caso, o Fotógrafo que encara a Fotografia como Arte, tem perante ela, uma altitude conceptual, e uma abordagem criativa, vê fotografias em todo o lado, mesmo onde elas não existem para o “comum dos mortais”. Como é “evidente” não podemos fotografar aquilo que não vemos. Paradoxalmente, algumas das fotografias que vemos, parecem terem sido feitas por invisuais. OPV              

 

 

 

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Todos os comentários feitos ao artigo :
Muro visual.

  • lunatik

    Sat 23 Aug 2008 00:09

    Viva
    sem dúvida uma análise muito profunda da Arte Fotográfica.
    Eu costumo fotografar tudo e mais alguma coisa, chegando mesmo a parecer ridículo para alguns amigos, algumas tecnicamente até são pobres, e sei disso, mas não consigo parar, ao mesmo tempo também não as considero arte.... para mim são simplesmente as coisas como eu as vejo, não passam neste caso da minha realidade, e de mais ninguém.
    Cumps.

  • António Castro

    Fri 22 Aug 2008 23:53

    Texto que constitui uma profunda e interessante análise!

  • Disparos Espontaneos

    Fri 22 Aug 2008 22:17

    Mt bem consebida... como de costume...
    Mais uma vez parabens!!