Zen sand
"A
hipótese de que as imagens tenham alma parece confirmada
pelos efeitos da minha máquina sobre as pessoas, os animais
e os vegetais emissores".
(Adolfo Bioy Casares, A Invenção de Morel,
113).
È uma observação perspicaz e uma hipótese plausível, no entanto alma é capaz de ser um termo um pouco datado (humanamente), mas que uma imagem (neste caso uma foto) tem identidade própria, disso não tenho duvidas. No fundo, aquilo que o fotógrafo faz é seleccionar imagens. Selecciona-as porquê? Porque de alguma maneira elas se lhe impuseram, seleccionaram-se a si mesmas. Para simplificar, esqueçamos os milhões de fotógrafos e os biliões de imagens, só um fotógrafo e uma única imagem. Estando o fotógrafo imerso num mundo “virtualmente” visual, porque é que determinada foto se impõe? Com um número quase infinito de ângulos, planos, pontos de fuga, variações de luz e enquadramentos ao seu dispor, ele toma uma opção? Ou não tem opção? Só pode fazer aquela foto e não outra? È o fotografo que faz a imagem, ou é a imagem que faz o fotografo? Parece uma pergunta disparatada não é? Pois é, mas se do universo de todos os fotógrafos (largos milhões), a maioria 99.999% afirmar que, a primeira hipótese é que é verdadeira, então tenho sérias razões para acreditar, que, a segunda é que é “verdade”. A unanimidade sempre me pareceu um bom indicador do que algo está errado.
Há milénios que lidamos com imagens, símbolos e mitos, que, supostamente deveriam ajudar-nos a descobrir quem somos, ou no mínimo, o que somos. Que sabemos nós? Nada! Não sabemos o que (nem quem) somos. Pior ainda, não sabemos que “realidade” é esta onde estamos submergidos! A alucinação colectiva em que a humanidade está mergulhada é pontualmente quebrada, por aqueles seres humanos que enlouquecem. A mente funde-se com o universo circundante e, os códigos de sobrevivência, vão literalmente “á vida”. O muro visual desaparece. As etiquetas e definições não têm lugar nas identidades vazias. Precisamente por estarem vazias é que cabe lá tudo. Os outros, os “lúcidos”, continuam a trabalhar na mesma frequência. A expandir o self, através da construção e desmaterialização permanente da imagem. Não vemos só aquilo que queremos, o “universo” entra-nos pelos olhos dentro. Quando pensamos que seleccionamos algo com a nossa máquina fotográfica, estamos na realidade a assentar mais um tijolo no longo muro da “realidade visual” que rodeia a nossa existência. Então, quem não faz fotografia, tem esse mesmo muro a rodeá-lo? Obviamente que tem, mas provavelmente nunca se aperceberá dele. Mesmo entre aqueles que praticam a Arte da Fotografia, só alguns, e só ao fim de um certo período de tempo, se apercebem do “muro visual”. È evidente que há uma subtil diferença, entre quem “tira umas fotos” e quem tenta, ou consegue usar a Fotografia como Arte. A diferença é, que, no primeiro caso o olhar do indivíduo é solicitado pelo “objecto” que lhe é familiar. Sejam familiares, amigos, monumentos ou paisagens. As suas opções são aleatórias e sem fio condutor. È (quase) como um pintor Naïf. Passe o pleonasmo, o olhar não está treinado, e só “vê aquilo que vê”. No segundo caso, o Fotógrafo que encara a Fotografia como Arte, tem perante ela, uma altitude conceptual, e uma abordagem criativa, vê fotografias em todo o lado, mesmo onde elas não existem para o “comum dos mortais”. Como é “evidente” não podemos fotografar aquilo que não vemos. Paradoxalmente, algumas das fotografias que vemos, parecem terem sido feitas por invisuais. OPV
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