Cynics
O mundo deixou de seguir uma ordem estável que orienta as suas metamorfoses de acordo com um plano. Tudo á nossa volta parece estar numa continua e desenfreada mutação. O medo que nos assola deixou de ser o da bomba atómica ou o da guerra entre as grandes potencias. A violência contemporânea está cada vez mais representada num plano microscópico. O valor do dinheiro é definido nos milésimos de segundos em que é transaccionado, as imagens fragmentam-se em milhares de pixels manipuláveis e mesmo o nosso pensamento político e cultural (se é que o temos) que é representado pela permuta pública de opinião e informação está a fragmentar-se em milhões de canais, em que cada um revela uma total indiferença pelos outros. Não é a aparente falta de uma ordem universal ou a correcta divisão entre o bem e o mal que provoca medo. È sim a estranha sensação de que nada tem mais uma forma estável. Seja o conhecimento, os bens materiais ou a própria comunidade. A aparência externa ou primeira impressão, não oferece nenhuma garantia para uma fiável noção de comportamento de uma substância, pessoa ou grupo. Não sabemos quem está a moldar ou a escrever o quê. Mas tudo, no mundo de hoje está a tornar-se “re-escrevivel” ou manipulavel. A manipulação de um par de moléculas transforma um inofensivo microorganismo numa doença fatal, um toque num teclado transfere montes de informação. Uma fotografia jornalística comprometedora pode ser encenada e retocada. Um facto é que nos dias de hoje, a “realidade” aparece como um campo de batalha de poderes imperceptíveis. A batalha está a acontecer dentro de nós mesmos; dos nossos corpos, da nossa família, da nossa cidade, do nosso país, do nosso mundo. Esse mundo das trevas, onde nada mais pode ser entendido ou confirmável. Mundo louco, completamente á mercê de outros sub mundos. Isto pode parecer um exagero ou um pesadelo, mas é a imagem que perturba o inconsciente do quotidiano desperto de cada um dos seres humanos que anda por este mundo, seja rico ou pobre, culto ou inculto, saudável ou doente. Ninguém está a salvo da matriz que está a ser criada. Isto porque estão todos profundamente submergidos nela. A fotografia raríssimas vezes capta a matriz, mas há que ir tentando. OPV
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