"O verdadeiro herói é aquele que faz o que pode. Os outros não o fazem." (Romain Rolland)
NA "literatura", um dos meus heróis favoritos, é o incrível Arséne Lupin, um francês, ladrão e gentleman, que executava os golpes mais mirabolantes com um estilo inigualável. Da autoria do escritor Maurice Leblanc, Lupin é uma espécie de Robin dos Bosques gaulês, mas mais moderno e requintado. Sendo um gentleman - cambrioleur, ou ladrão - cavalheiro, tinha uma característica especial, avisava sempre a vítima antes do roubo. Apesar disso, e dos esforços da polícia, Lupin conseguia sempre o que queria. Uma das suas características mais interessantes era não se levar muito a sério, e a sua arma mais temível era o engenho. Comportava-se não, como um aristocrata que vivia como anarquista, mas como um anarquista que vivia como um aristocrata. Infelizmente, e como quase sempre, o filme não faz justiça aos livros.
ISTO vem a propósito da roubalheira generalizada, a que o cidadão comum assiste impávido, mas não sereno. Está bem, que a humanidade é especializada na arte do gamanço desde os princípios dos tempos, mas o que se está a passar nos últimos anos, é um bocadinho exagerado. Os romanos roubavam os povos que colonizavam, ou escravizavam, os ingleses, roubavam tudo o que lhes aparecia pela frente, desde os indianos aos nativos sul-africanos, os espanhóis dizimaram os astecas, os portugueses eram o terror das costas africanas, e do Brasil, os americanos além de gamar os índios, praticamente acabaram com eles. Enfim, como se vê e se sabe, gamar a torto e a direito sempre foi uma característica do homem, e dependendo da zona e da época, dava direito aos maiores louvores. A maior parte dos lordes ingleses, construiu os seus domínios, á custa do sangue suor e lágrimas dos indianos e paquistaneses. Podemos afirmar tranquilamente que, gamar está no ADN da humanidade.
TALVEZ por isso, não tenha nada de surpreendente que o inglês comum compre três casas para viver apenas numa. Isto, porque dois terços do dinheiro que ele paga numa hipoteca são somente para pagar os juros. Se ele pedir ao Banco Nacional de Westminster um empréstimo de £50.000, para comprar uma casa, na volta vai ter que pagar £152.000. Ou seja acaba por pagar três casas para viver numa. O mesmo, ou pior, se passa em Portugal, e parece que ninguém vai preso por causa disto, embora se trate de um roubo á descarada. Num laivo de ironia, os bancos ainda dizem que estão no mercado para tornar a vida mais fácil ao cidadão. Apre, olha se eles não fossem tão bonzinhos. Mais uma vez se verifica que roubar é uma metáfora, e que o ladrão abominável é aquele que se deixa apanhar, ou o que não tem uma instituição para o proteger. Ladrão foleiro é o do esticão, ou o que rouba velhinhas, e chupa-chupas às crianças. Ladrão foleiro, é o idiota que assalta um café para roubar 20€, um maço de tabaco e um fio de ouro ao cliente. Ladrão foleiro é todo aquele que roubando, não rouba nada, a não ser o sossego, e tranquilidade, daqueles a quem perturba.
PARA estes ladrões da treta, deveria haver pena de morte, não pelo valor do roubo, mas por serem tão estúpidos. Para os outros, deveria haver comendas, um tipo como o Duarte Lima deveria ser condecorado com a Ordem da Jarreteira, isto porque em Portugal não há comenda que lhe faça justiça. Esta espécie de Lupin á portuguesa, e á moda de Miranda do Douro, é um tipo requintado. Um tipo que dava jantares na sua luxuosa casa, com cozinheiro privado (Luis Suspiro) e convidava somente gente "de bem", gente como J. Sócrates, João Rendeiro, M. Maria Carrilho, Barbara Guimarães, Adriano Moreira, Margarida Marante e Emídio Rangel entre outros. Dizia eu, um tipo que faz uma coisa destas, está a avisar a polícia que não anda propriamente a gamar carteiras no Rossio. Principalmente, quando a polícia sabe que ele chegou á capital, com uma mão á frente e outra atrás, sabe-se lá do quê. Um tipo que faz uma coisa destas, tem uma autoconfiança a toda a prova, e um sentido de humor um bocadinho a fugir para o sinistro. Um tipo que não tem onde cair morto (tanto assim que não morreu quando devia) e consegue sacar mais de 45 milhões a um banco, não devia ir preso, devia receber uma estátua na praça mais nobre da capital. A sua história deveria ser imortalizada em livro, para as gerações futuras verem como, com papas e bolos, e alguns vinhos requintados, se enganam os tolos.
ESTE tipo, não é um anarquista que vivia como um aristocrata, mas é sim, um arrivista que vivia como um deslumbrado. Rodeando-se de objectos de arte caríssimos, e de decorações luxuosas levadas a cabo pela Graça Viterbo, o homem julgou exorcizar-se da miséria onde nasceu. Aqui, embora demonstrando algum engenho, faltou-lhe a sagacidade de Lupin, e a capacidade de não se levar a serio. Pelo contrário, levou-se muito a sério, e o resultado está á vista. O mais interessante desta história, é que esta personagem é um paradigma, como ele, há centenas, ou milhares de portugueses, que julgam que o perfume encobre o cheiro a merda. Gente, que por muito dinheiro que tenha, nunca deixa de ser miserável. Gente que não percebe que o dinheiro é um meio, não é um fim. Qualquer aristocrata medieval, se divertia muito mais, com um décimo do dinheiro que alguns milionários actuais possuem, e quase sempre conseguia chegar ao fim da vida, com a fortuna dissipada em putas e vinho verde. Os herdeiros que se desenrascassem. Os nossos milionários contemporâneos, só sabem fazer mais dinheiro, criar fundações e tomar conta dos netinhos. A diversão máxima é ganhar uns milhões na bolsa, não é comer as criadas todas lá da quinta. Fonix, que já não há estroinas como antigamente. Assim meus amigos, acho que devíamos lançar uma petição para o Duarte Lima ser elevado á condição de herói nacional, fazer um filme sobre ele, onde seria interpretado pelo Nicolau Brayner, e nomeá-lo organista oficial da Sé de Lisboa. Para lhe virar as partituras, nomeava-se o Cavaco. Boas fotos. OPV
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